Conhecemos aquela frase muito comum em palestras motivacionais: “sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho” – Porra nenhuma.
É claro que são coisas diferentes. Não é o ato de sonhar que dá o trabalho, sonhar acordado qualquer um sonha, inventar coisinhas da nossa cabeça qualquer um faz. E honestamente, imaginar a coisa é sim uma etapa a ser vencida, visualizar a coisa faz parte sim do plano.
É por isso que essa frase parece fazer algum sentido quando você escuta alguém que realizou algo dizendo. Porque ela não é toda falsa, ela só tem um erro de lógica e é em cima dessa lógica que caímos na armadilha.
Sonhar pequeno e sonhar grande dá o mesmo trabalho. Do que estamos falando de fato? Da etapa da imaginação? Da etapa da aposta? Ou da parte da execução?
Se estamos falando da imaginação, é uma meia verdade: Não dá exatamente o mesmo trabalho, mas pode ser algo parecido para alguém que já viveu e teve mais experiências de vida. Com possibilidades no seu horizonte, conhecendo mais histórias de vida, sabemos o que é uma vida possível e conseguimos imaginar.
O ser humano, inclusive, é o único ser capaz disso, de juntar partes do real e criar na sua imaginação algo que ainda não existe ou descrever algo que o outro nunca teve experiência.
Por exemplo, se quero descrever uma bolinha de tênis para alguém que nunca viu uma, posso muito bem utilizar o conceito da bola de baseball, com seu tamanho e aparência. Posso usar um marca-texto amarelo para descrever a cor e um tapete de carro para descrever sua textura. E mesmo sem nunca ter visto uma bolinha de tênis, a pessoa conseguiria imaginar minimamente do que se trata.
Essa é uma etapa fundamental, imaginar o que a coisa é, saber construir isso no pensamento. Mas ela não é suficiente para a realidade.
O que acontece muitas vezes é que apostamos no pouco, apostamos naquilo que é pequeno. Não porque não conseguimos imaginar. Na maior parte das vezes apostamos no pouco porque o pouco parece seguro, parece estável e mais real, mais próximo de alcançar. No pouco a aposta não é no que queremos de fato, mas no medo de nos frustrar.
Apostar no pouco é apostar em uma suposta segurança que não existe.
O emprego? Um que paga as contas.
O namoro? Um que não dê trabalho. Esse que já conheço os defeitos.
Dinheiro? O suficiente para ter um tipo de conforto.
Religião? A que conheço ou a que me acolheram.
Assim evitamos conflitos, evitamos atritos, mas principalmente: barganhamos o risco da frustração.
Assim apostamos quando as chances de vitória são quase certas. Mas qual vitória seria essa? E que vida triste e sem graça essa que tudo é medido na base daquilo que vale ou não vale a pena.
A etapa da aposta é decisiva. A imaginação aceita muita coisa, ela depende apenas daquilo que você já armazenou e agora pode moldar. A aposta não, ela delimita um caminho, delimita margens possíveis. Ainda não tem concretude, mas já apresenta direção e coloca algo em risco.
Quando falamos de aposta a frase sonhar grande ou pequeno dá o mesmo trabalho já não faz mais sentido. Apostar no grande ou no pequeno daria o mesmo trabalho? Me parece que não.
Se faço uma aposta para ganhar muito, preciso apostar mais; se ela não for mais cara, será então mais concorrida e vai requerer maior esforço.
Quando falamos de aposta estamos apontando para dois fatores centrais: Prêmio e Custo.
O que acontece é: Queremos o prêmio grande, mas diante do custo, fingimos preferir o prêmio menorzinho. Não queremos nos decepcionar nem nos gastar sem garantias.
Esse é o problema, na falta de garantias jogamos na defensiva o jogo inteiro, para chegar ao final do jogo e ver que não dava mesmo para ganhar. É claro que não, se você não ataca não é possível ganhar o jogo e eventualmente ainda pode perder.
Na tentativa de empatar você chuta para frente e fica atrás, reclamando que a bola não entrou. Esse é o cenário.
Apostar é chutar a bola para frente e correr para alcançar.
Se você tem a força para correr vai querer dar um chutão, se não tem força vai precisar olhar ao menos para 2 opções. Dividir em diversos chutinhos pequenos, mas coordenados, planejados e sequenciais ou desenvolver a força. Essa força pode ser para dar um chutão ou para criar a habilidade necessária para sair driblando, de todo modo será uma força a ser desenvolvida.
Apostar na força. Se você está buscando segurança, essa é a sua melhor chance. A força não vai resolver todas as situações, nem te entregar as garantias que busca, mas é a nossa melhor chance.
Imaginar o que queremos, sonhar e apostar na força, chutar a bola para frente e buscar os meios para realizar aquilo. Esse é o desenho de uma vida que vale muito mais a pena.
Esse é o terceiro elemento, a parte da execução. Especialmente no Brasil, vemos isso constantemente. O brasileiro no geral não dá causa para aquilo que deseja e quando o que ele queria não acontece ele reclama. Reclamar, inclusive, é um pré-requisito de convívio social. As pessoas ao redor esperam que você reclame e se você não reclama um pouco de alguma coisa logo te olham torto.
Não é sem motivo, claro que isso não é um problema do povo. Existe uma explicação para sermos assim. Somos submetidos a grandes instabilidades emocionais; uma educação voltada aos títulos e credenciais, sem correspondente real de aumento da inteligência e formação; e uma imensa dificuldade na vida prática e nos relacionamentos, confundindo e misturando o tempo inteiro questões de ordem sentimental àquelas de ordem prática e lógica.
Declaro que quero uma coisa pela manhã e na hora do almoço, após uma discussão ou uma notícia, deixo aquele meu querer de lado e parto para uma atividade que possa me dar um certo tipo de conforto. Você já deve ter experimentado isso algumas vezes.
A sua inteligência declara uma coisa, seu desejo declara outro, você alimenta aquela imaginação do primeiro movimento do sonho e tenta viver aquilo como realidade. Passa o tempo e aquilo não se concretiza e você se frustra. Solução? Mudar o sonho, viver no automático, tomar para si um monte de “tanto faz”. Ir vivendo a vida entre uma obrigação burocrática e outra, entre um boleto e uma roupa para passar, entre uma faxina da casa e uma lâmpada queimada, entre lavar o carro e colocar as crianças para dormir. Sem planejar, sem sonhar, sem pensar. Uma vida irrefletida, sem peso, sem medida.
Por fim nada acontece, mas também não sabemos onde erramos, onde acertamos, onde precisamos melhorar, o que podemos mudar, quais etapas precisam ser resolvidas e quais problemas precisamos atacar. Não sabemos a força que temos nem aquela que precisamos desenvolver e por fim chutar a bola parece difícil demais, melhor assistir o jogo pela TV.
Eu não quero que seja assim, nem para mim, nem para ninguém à minha volta.
Um ideal não existe somente para cultuá-lo, existe para ser realizado. E para fazer isso precisamos, na maioria das vezes, passar por diversas fases intermediárias: Conquistar os meios pessoais, financeiros e humanos para isso; administrar o tempo, as energias e mais importante, ter uma forma de olhar para a nossa vida e perceber que, ainda que não esteja realizado aquilo que queremos, que aquilo que estamos fazendo está a caminho da realização desses planos, desses sonhos.
Aquele vazio que muita gente sente, aquela coisa dentro do peito que não sabemos dar nome direito, que remédio não resolve, que terapia não cura, muitas vezes mora aí, nos planos que faço, no sonho acordado que posso ter sozinho ou com quem amo.
Se não faço planos e não me coloco à disposição e a caminho de realizá-los, chego ao final do dia e não encontro sentido. E não encontro porque minha vida não está apontando para lugar nenhum e quando aponta não consigo me ver indo naquela direção.
E na busca de solução, o erro que muitos cometem é começar a olhar muito para dentro. Sentimos um buraco e tentamos preencher ele com “como eu estou me sentindo?”, como se eu fosse encontrar esse sentido dentro e quanto mais nos examinamos, mais vazio vamos ficando. Por outro lado, se olho só para fora vivo aquela vida no automático que falávamos agora há pouco.
Precisamos conseguir olhar para fora desde dentro, esse é o jogo. Para fora com direção, desde dentro porque precisa ser pessoal, é o seu sonho, seu plano, uma realização sua, ou em conjunto com quem ama, compartilhado.
Conquistar os meios, com coragem, buscar a força necessária. São essas respostas que alimentam a nossa aposta, que realizam nossos sonhos e respondem àquelas várias perguntas que vamos acumulando ao longo da vida. O problema não é apostar no pouco, é se decepcionar ao fim da vida por ter vivido toda ela com medo de apostar naquilo que queria de verdade.
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Sobre o Autor
Bruno Vezzoli é terapeuta, atua há anos com orientação prática a partir da articulação entre vida interior, responsabilidade concreta e sentido.
Seu trabalho parte da convicção de que a vida não se organiza por fórmulas, mas quando a pessoa aprende a lidar com limites reais de tempo, força e circunstâncias, sem perder de vista aquilo que dá sentido às escolhas.