Consciência

Pinóquio e o Sentido da Vida

24 de setembro de 2026

Acho que a maioria dos adultos deve conhecer o clássico filme da Disney “Pinóquio”.

A história que conhecemos é a do bonequinho de madeira que tinha um nariz que crescia quando contava uma mentira. Esse é o ponto central que ficou na memória da maioria de nós e o que foi reforçado quando nos contavam a história para que não contássemos mentiras.

Bom, eu cresci com essa história contada sob esse ponto de vista também. Mas quando foi a minha vez de contar essa história para minha filha comecei a observar que existia muito mais coisas ali que poderíamos conhecer.

A história começa com o Grilo Falante, ele é o narrador. Ele começa dizendo assim “uma porção de vocês ai não acreditam que um desejo se realize, não é mesmo?”

Ele diz também: “Sou apenas um grilo cantando pelos caminhos para todos os corações, mas vou contar a vocês porque eu passei a acreditar.”

Essas duas frases já são materiais para meditarmos por dias.

Ilustração do Grilo Falante em uma rua de vila à noite, diante da oficina de Gepeto, com montanhas nevadas ao fundo

Vivemos em um tempo de crise de esperança. Podemos até dizer que falta fé, falta amor, pode até ser mesmo que falte, mas a fé é fruto do amor e o fundamento da esperança; é a esperança que rega o amor, para fazer com que dê frutos, então sim, pode ser uma crise generalizada, mas queria começar por aqui, pela esperança, ou pela falta dela.

Uma porção de vocês ai não acreditam que um desejo se realize, foi o que o Grilo falou. Esse ponto é central nas nossas vidas. Por não ter essa esperança, muitos de nós deixamos de acreditar, deixamos de planejar e, sem planos, nem sabemos ao menos onde queremos chegar, nem mesmo se o que fizemos no dia de hoje nos aproximou ou nos afastou desse desejo, sonho, plano, não sei, podemos chamar de qualquer um desses nomes.

A falta de planejamento não é só falta de prudência, é algo incompatível com uma vida moral. Não digo aqui aquela moral relacionada a um ato bom ou ruim. Sabemos muito bem quando olhamos para o que não deveria ser visto, pegamos o que não deveria ser tocado por nós ou falamos daquilo que não era da nossa conta, estou falando de uma vida moral, uma vida que para você, com as suas características, dentro das suas circunstâncias, alimentado e orientado com seus desejos, possa chegar naquele lugar que queria.

Más inclinações todos nós temos e avaliar os nossos atos não é tão complicado assim. Agora avaliar a nossa vida e como nós a estamos vivendo, isso sim, depende de planejamento, de atenção, de sinceridade, de humildade, de um plano de vida.

Essa é a crise dos nossos tempos, na qual todos nós estamos inseridos e começa ai, nessa falta de acreditar que o desejo se realize.

“Sou apenas um grilo cantando pelos caminhos para todos os corações, mas vou contar a vocês porque eu passei a acreditar” é a outra frase que marca muito o início dessa história e me lembra muito uma parte de um poema conhecido de Antonio Machado que diz assim:

Desdeño las romanzas de los tenores huecos
y el coro de los grillos que cantan a la luna.
A distinguir me paro las voces de los ecos,
y escucho solamente, entre las voces, una.

Desdenho as romanças dos ocos tenores,
assim como o coro dos grilos que cantam à lua.
Detenho-me a distinguir a voz do seu eco,
mas dentre as vozes escuto só uma.

Ver a escolha da história em começar com um grilo que canta a todos os corações uma música que pede por esperança e que quer narrar uma história de como ele passou a acreditar é no mínimo curioso quando lembramos desse trecho do poema.

Um grilo cantando aos corações e o eco daquele canto que se confunde com outras vozes.

Perceba, sem um plano é isso o que acontece mesmo com o nosso coração: Escutamos várias vozes e seus ecos, aquilo ecoa dentro de nós, as vezes nos move a uma ou outra inclinação e nosso trabalho passa por desdenhar dessas vozes que escutamos em busca de encontrar aquela única que fala ao nosso coração verdadeiramente.

Essa voz não é exatamente a voz do grilo, mas uma voz, a nossa voz, a voz de Deus, algo que se confunde por um tempo até ficar mais claro, da mesma forma que esse início da história parece um pouco confusa. Porque um grilo estaria narrando uma história de um carpinteiro que fez um boneco de madeira?

Bom esse início e essa primeira reflexão tem esses dois elementos centrais: Ter planos pessoais, desejos a serem realizados e escutar, dentre as vozes que nos falam, aquela única, que precisa ser ouvida, precisa nos fazer companhia diariamente enquanto continuamos ouvindo aqueles ecos e outras vozes que parecem querer falar ao nosso coração, mas as vezes falam de problemas de fácil solução que ocupam nossa mente, ou mesmo de coisas boas, mas que não serão um bem para nós.

Cena do desenho Pinóquio: Gepeto pinta o rosto do boneco de madeira em sua oficina, ao lado de um aquário

O grilo entra em uma oficina em uma pequena cidadezinha nas montanhas e lá dentro encontra diversos objetos talhados em madeira. Brinquedos, caixinhas de música, relógios, uma carpintaria cheia de itens de madeira.

É possível perceber que era um lugar de alguém que se dedicava ao trabalho, as peças bem feitas, com cuidado. Mas um objeto o chamou a atenção, um bonequinho do tipo marionete, desses que se controla por cordões. Chama a atenção porque era diferente dos outros, porque estava separado na mesa de carpinteiro e apesar de muito bem trabalhado e feito de boa madeira, ainda estava inacabado.

Logo aparece Gepetto, o carpinteiro que comenta com alegria como acha que seu trabalho está ficando muito bom, como quem contempla uma obra terminada com amor de quem colocou sacrifício para ver aquilo se concretizar. Pinta as sobrancelhas e um sorriso no boneco e comenta: Isso faz muita diferença.

E para terminar dá ao boneco o nome de Pinóquio e dança com ele como quem quer fazer aquela criação durar e contemplar o trabalho bem feito com alegria.

Antes de adormecer Gepetto comenta sobre seu desejo de Pinóquio ser um menino de verdade, vai até a janela e faz uma oração sincera com esse pedido.

O que vimos até aqui foi um homem, com seus desejos e circunstâncias, colocando os meios para que um bonequinho de madeira fosse construído, ganhando vida materialmente e logo após fazendo um pedido para que ele viesse a ganhar vida, de fato.

A fada azul entra na carpintaria na forma de uma grande luz que vem se aproximando e dá a Pinóquio o dom da vida. “Bonequinho de madeira, tens o dom de uma vida inteira.”

Pinóquio passa a se movimentar sem os cordões e consegue falar. Mas ainda não é um menino de verdade, ainda é um menino de madeira. Como a fada azul diz a Pinóquio, realizar o desejo de Gepetto é uma coisa que depende dele. Se provar que é sincero, valente e generoso um dia será um menino de verdade.

A Fada dá a Pinóquio um caminho de virtudes possíveis para alcançar esse desejo. Mas esse caminho ainda é genérico e teórico, isso deverá acontecer dentro da vida concreta de Pinóquio e para começar a lhe fazer companhia, nomeia o Grilo como sua consciência.

Aqui voltamos rapidamente no início, quando as vozes dos grilos e dos ecos tentavam falar ao coração das pessoas. Bom, está aqui uma bela escolha da forma como essa história é escrita. O grilo que o poeta tenta silenciar é o grilo que inicialmente Pinóquio vai ter que escutar dentre tantos outros sons que parecem falar ao seu coração.

Gepetto recebe com grande alegria a notícia de que aquele que ele ajudou a criar agora tem vida.

Aqueles a quem damos a matéria para que sejam concebidos, recebem o dom da vida e vêm ao mundo. No início, sua consciência é quase externa mesmo, como o grilo é para Pinóquio são os pais para uma criancinha. São eles que irão formar com amor aquela consciência, sendo companhia, estando presentes e conduzindo os juízos. Esse era o papel do Grilo quando foi nomeado consciência.

E já no primeiro dia em que Pinóquio usa da sua liberdade humana e sai de casa para ir à escola, começa por escutar os ecos que parecem falar ao seu coração. Encontra com duas figuras que oferecem a ele fama e dinheiro no teatro de marionetes. Ao invés de ir à escola e de obedecer seu pai, ele escolhe escutar essas vozes e sai em busca de fama, dos holofotes voltados para ele.

Para isso Pinóquio só precisaria dar em troca a sua liberdade.

Ilustração de Pinóquio preso em uma gaiola trancada com cadeado, observado por Stromboli, homem barbudo e zangado

Para um boneco de madeira que não entendia ao certo do que isso se tratava, não parecia tão ruim. Afinal, fazia muito pouco tempo que só podia se movimentar caso alguém orquestrasse suas cordas e trocar isso por movimentos em um palco, pela validação do público e por dinheiro parecia até uma boa escolha para ele.

Até descobrir que a liberdade era mais do que movimentos e escolhas. Ele iria ficar preso em uma gaiola, afastado de seu pai e havia desistido de ouvir o Grilo, sua consciência.

Esse ato de desobediência e desdenho das vozes que deveria escutar leva pinóquio a uma gaiola no fundo de uma carroça, preso, com alguém escolhendo em quais locais se apresentaria e o que deveria fazer.

O grilo o encontra e após muito trabalho tentando abrir a gaiola aparece a Fada azul pela segunda vez. Pinóquio conta uma mentira, inventa uma história para dizer que não teve escolha, que foi obrigado a fazer o que fez e que não queria desobedecer. Essa é a parte da história que marcou gerações que viram o nariz dele crescer.

O nariz crescer é uma representação da caricatura que vamos nos tornando quando nos afastamos da Verdade. Ao se afastar da Verdade e mentir àquele que te deu a vida, nos escondemos, perdemos o conhecimento de onde viemos e quanto mais nos afastamos desse lugar, ainda mais perdidos e sem planos ficamos.

Conversando com o Grilo ele confessa à Fada azul o que fez e se dispõe a não cometer os mesmos erros novamente.

A Fada azul perdoou Pinóquio, o nariz dele voltou ao normal e ela o libertou da gaiola. Ele conversou com o Grilo e se comprometeu a viver de forma mais digna a partir de agora. Mas o ponto central ainda não estava resolvido, Pinóquio estava fraco e sem direção.

Querer fazer o bem é um elemento fraco diante de não saber o que é este bem para Pinóquio. Ser generoso, valente e sincero é claro na teoria, mas para Pinóquio, na vida dele, nas circunstâncias dele, com os sonhos e desejos dele, como ele articula isso com as projeções que faz da vida? Esse era o desenho que ainda faltava a Pinóquio e que não deu tempo de ter com o Grilo antes de cometer o próximo erro.

O discurso do Grilo foi suficiente até metade do caminho para casa, saindo dali, ainda que perdoado e renovado, pinóquio escuta falar da Ilha dos Prazeres e achando ser merecedor de um tempo de descanso e de alguma liberdade, decide por ir para lá e fazer o que quiser.

A liberdade humana precisa estar articulada com a realidade, com suas responsabilidades, ela sozinha é mera libertinagem e tragédia. Mais uma vez, longe da sua consciência e longe de seu pai e já sem a presença da Fada azul para lhe exigir alguma coisa Pinóquio começa a escutar as vozes presentes na Ilha dos prazeres.

Começa a entregar cada vez mais e, mais uma vez, o controle da sua vida. Comer o que quiser, depredar o parque da ilha, satisfazer apenas seus próprios desejos, e quanto pior agisse, aparentemente mais prêmios recebia.

Até que começaram a notar que alguns dos meninos que foram à ilha dos prazeres estavam sumindo. Aqueles meninos estavam se tornando burros e aqueles que já não podiam mais se comunicar como pessoas, eram enviados às minas para trabalhos forçados.

Ilustração de Pinóquio assustado, com orelhas e rabo de burro, ao lado de um menino já transformado em burro

Aqui a escolha do animal foi mais uma vez muito bem pensada. Realmente nos tornamos burros quando nos afastamos da Verdade, quando não buscamos mais ouvir e separar aquela única voz que deveríamos ouvir entre vários ecos que nos rodeiam.

Pinóquio estava se tornando um animal. Ele deu ouvidos às vozes que falavam que ele era um menino, que ele não precisava ter responsabilidades, que podia se movimentar agora livremente. Aqueles com quem ele estava conversando eram os interlocutores dos seus desejos e inclinações mais baixas e a sua vida ganhou essa narrativa, a narrativa de um animal.

Não porque se divertir e fazer essas vontades eram erradas, de forma alguma, mas porque isso tomou o centro da sua vida e se desarticulou de qualquer outro plano, de qualquer sentido.

Ao querer sentir-se como um menino de verdade ele agiu feito um animal e pouco a pouco foi tomando o caminho oposto, ao invés de se humanizar através daquele caminho virtuoso que a Fada azul lhe apresentou em um primeiro momento, optou por um mundo de prazeres sensíveis que o animalizaram, não por completo, mas fez com que ele recebesse um rabo e orelhas de burro.

Foi quando decidiu sair dali com o Grilo e voltar para casa. Se atirou no mar com a esperança de sair dali e ser bom, verdadeiramente bom. Mas chegando lá, de volta em casa, seu pai já tinha saído à sua procura e havia sido engolido por uma baleia. Pinóquio então escolhe um caminho de amor e encontra uma forma de entrar na baleia e rever seu pai.

Ainda com orelhas e rabo de burro entra na baleia Monstro e, dessa vez, apesar de privado de liberdade, como esteve nas outras duas vezes, se sente feliz ao reencontrar seu pai e poder estar ali com ele, na sua companhia.

Mas apenas entrar ali não resolveria o problema, o lugar era molhado, só tinha comida quando a baleia se alimentava de algum cardume de peixes e em algum momento o estômago da baleia iria digerí-los.

O que acontece na história, para mim, é muito simbólico. Vemos nesse ponto da história um boneco de madeira juntar madeira e fazer uma fogueira, vemos a generosidade com que Pinóquio se dispõe a gastar-se, podendo ser consumido pelo fogo e fazer parte daquela fogueira, o pequeno menino de madeira queima a madeira que ali encontrou para que a baleia, incomodada, os expelisse.

Ilustração de Pinóquio, com orelhas de burro, junto a uma fogueira cheia de fumaça, com Gepeto em pé ao lado

Após o espirro da baleia precisam ainda nadar o mais rápido que podem para fugir dela e nesse percurso Pinóquio não resiste, e após se chocar contra as pedras, morre, ou ao menos é dado como morto.

Aquele menino de madeira, que tinha o dom de uma vida inteira entrega a sua vida ao final, depois de diversos erros e ajustes, para se reencontrar com seu pai e para ficar em liberdade junto dele.

Ali Pinóquio morreu, morreu para ele mesmo, morreu para suas más inclinações e para uma vida voltada aos prazeres desenfreados que o animalizavam. Morto para os desejos mais baixos e agora inclinado a uma disposição real de se derramar para fora, de se deixar queimar e consumir para que aqueça e ilumine a vida daqueles que ama.

Ficam para trás as escolhas fáceis e prazerosas e Pinóquio dobra a aposta naquelas coisas que duram, ainda que tenha que se queimar para isso, se desgastar, se oferecer como sacrifício. Essa é a terceira e última aparição da Fada azul, que o limpa novamente das orelhas e rabo de burro e o faz um menino de verdade.

E ai começa a história de pinóquio como pessoa, mas essa é a narrativa da nossa vida. De onde eu vim? Para onde eu vou? A proximidade com quem me criou. Minhas más inclinações e a luta diária para não me afastar dessa ordem criadora do mundo, para não me afastar do meu pai e em me dispor diariamente a me gastar e a ser consumido para aquecer e dar esperança àqueles que amo.

Ao final Pinóquio já tinha desenvolvido sua consciência, sabia que continuaria escutando várias vozes e que em alguns momentos algumas iriam falar mais alto que outras, mas que na companhia daquele por quem ele voltou, daquele que estava à sua procura, conseguiria escutar aquela única voz que deveria sempre buscar e guiar a sua vida por ali.

O Grilo ganha um emblema de ouro, descrito como Consciência Oficial e fica feliz percebendo que a dignidade não era aquele item, mas o trabalho que tinha feito apontando para Pinóquio para onde tinha que olhar e na companhia de quem tinha que escutar a voz que falava ao seu coração.

Bruno Vezzoli, autor do Axis Framework, de camisa branca e mãos unidas à mesa, diante de uma estante de livros

Sobre o Autor

Bruno Vezzoli é terapeuta, atua há anos com orientação prática a partir da articulação entre vida interior, responsabilidade concreta e sentido.

Seu trabalho parte da convicção de que a vida não se organiza por fórmulas, mas quando a pessoa aprende a lidar com limites reais de tempo, força e circunstâncias, sem perder de vista aquilo que dá sentido às escolhas.

Se ao chegar aqui você não consegue responder com clareza em torno do que sua vida está girando hoje, preparei um material gratuito, curto e direto.

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